Presidenta, sim!
Marcos Bagno 11 de janeiro de 2011 às 10:58h
Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista
embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no
noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por
motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer
sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da
forma supostamente “neutra” do masculino. Se alguém tem um filho e
oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é
machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o
que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina
os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade,
têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira
que a marca desse predomínio masculino tenha sido inscrustada na
gramática das línguas.
Somente no século XX as mulheres puderam começar a lutar por seus
direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em
diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar. Em
francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente
masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente
no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e
moderno do que a França. Em muitas sociedades desapareceu a distinção
entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica
para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e
possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em
todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração
que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.
Agora que temos uma mulher na presidência da República, e não o tucano
com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais
conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da
língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma
presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e
deixou claro que é assim que deseja ser chamada. Mas o que faz a nossa
“grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como
CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente. E chovem
as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou
uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas
trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não
trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de
formação de palavras da língua.
Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os
nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os
argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a
presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande
mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na
presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso,
merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é
presidenta. O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em
questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar
“estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos
os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se
aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa
eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que
tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa
“grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa
solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul
por dentro, defensora de tantas ideias retrógradas, seria agraciada
com esse obséquio se o pedisse. Estranheza? Nenhuma, diante do que
essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia,
umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja
por um simples -e no lugar de um -a, continuar sua torpe missão de
desinformação e distorção da opinião pública.
Marcos Bagno é professor de Linguística na Universidade de Brasília
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